O espetáculo é o primeiro solo do interprete e tem dramaturgia de Daniel Arcades… 

A partir da década de 1960 movimentos sociais que reverberam até hoje ganharam força ao redor do mundo. Os levantes pelos direitos civis dos negros ganham força com Malcolm X e Martin Luther King – nos EUA, Nelson Mandela – em África e Abdias do Nascimento – no Brasil. O tempo passa e traz novas revoluções e conquistas: as mulheres queimam seus sutiãs em praça pública, os gays mostram suas bandeiras. E a cada ano gordos e pessoas trans ganham mais destaque no mundo da moda.

Os braços levantados gritam pelos seus direitos e não querem mais ser silenciados. São pessoas e grupos que não querem mais ser temas de piadas racistas, machistas, homofóbicas e xenófobas. Enquanto isso, dentro de uma sala de terapia, um comediante percebe que suas piadas não são mais tão engraçadas. Em crise ele constata que durante muito tempo seu “humor” machucou e ofendeu muitas pessoas.

As famosas piadas da opressão e o humor ofensivo dão o tom da construção dramatúrgica de Crise de Riso, primeiro espetáculo solo de Talis Castro, que comemora 20 anos de encontro com o teatro em 2017. Com texto de Daniel Arcades, vencedor do prêmio Braskem de Teatro de 2016 como melhor dramaturgo da Bahia, a peça, que estará em cartaz no Teatro do Sesi Rio Vermelho, de 09 a 24 de setembro (sábados e domingos), às 20h, conta a história de um comediante que faz terapia porque não consegue mais achar graça das próprias piadas e propõe uma reflexão sobre os novos rumos do humor.

Considerado um ator versátil, e com um vínculo forte com a comédia, Talis Castro conta que desde 2012 pensa e pesquisa sobre o tema. A montagem, um misto de narrativa dramática e stand-up comedy, passou por várias etapas, mas só agora chega ao discurso que o ator e idealizador deseja. “Isso se deu pelo tempo que venho maturando o assunto e também com a chegada de Daniel Arcades, que organizou minhas ideias e pesquisas e as transformou em dramaturgia”, pontua.

Castro fala que a comédia baseada na construção narrativa ofensiva sempre o tocou como humorista. O que levou o próprio ator a uma crise sobre o fazer stand-up comedy, gênero em que atuou por muitos anos. “O espetáculo vem para compartilhar estes pensamentos e também propõe uma reflexão sobre como podemos escolher uma comunicação não violenta, ampliar o lugar de escuta, abrir espaços para as transformações e deixar para trás velhos hábitos que sabemos que  não fazem mais sentindo dentro dos ideias de sociedade que queremos construir”, realça.

O espetáculo que é uma tragicomédia, propõe uma reflexão sobre a crise ideológica que estamos vivendo enquanto sociedade e defende que não devemos nos apegar a ideias como se elas não fossem mutáveis, como se nós não fossemos mutáveis. “Tudo está em transição, sempre. Precisamos fortalecer transformações significativas em nossa sociedade, garantindo direitos e visibilidade de uma forma diversa e abrangente. As diferenças vão sempre existir e elas não podem ser motivo para diminuir uma pessoa ou grupo. Nem ‘de brincadeira’ “, declara o ator.

CRIA

O espetáculo, que não tem patrocínio de empresas privadas nem é financiado por edital, está com uma campanha numa plataforma de mobilização de recursos para projetos de impacto cultural e social, a Benfeitoria, no link https://benfeitoria.com/crisederiso. “Mesmo sendo um espetáculo solo, não se faz teatro sozinho. Tenho a alegria de contar com uma equipe de grandes artistas que atuam não só na produção cultural, mas também na busca de transformações sociais, por isso, acreditamos que é possível que ele aconteça a partir deste financiamento coletivo”, explica o interprete.

Em contrapartida, através deste projeto de financiamento coletivo, Talis Castro realizará um intercâmbio com 60 jovens artistas do CRIA – Centro de referência Integral de adolescentes, uma ONG que oferece formações de arte educação para jovens de comunidades da periferia de Salvador, com a Oficina “Novos Rumos do Humor”, mais um dia de mediação cultural, com uma imersão no processo de montagem da peça, ingressos para estes jovens assistirem Crise de Riso (incluindo o transporte e a alimentação dos mesmos). Além, é claro, de cobrir todos os custos de realização do espetáculo, incluindo o cachê dos artistas envolvidos.

“O CRIA tem uma atuação de 23 anos e vem demonstrando grandes resultados. Possibilita a democratização não somente do acesso, mas também dos processos de criação de bens culturais, dando reforço, a partir da noção de Direito à Cultura, à luta pela garantia da cidadania cultural de populações tradicionalmente excluídas”, explica Talis Castro.

Perfil

Em outubro deste ano, o ator completa 20 anos de encontro com o teatro. Nascido em Ribeira do Pombal, interior da Bahia, no início da adolescência foi morar na capital onde aos 11 anos começou a fazer aulas de teatro na escola onde estudava por causa da avó Beatriz, que sonhava em vê-lo na televisão. “Eu nem podia imaginar que este caminho me levaria a encontros com tanta gente e tantas linguagens. Além do teatro, o cinema, a web e, como minha Vó sonhava, a televisão”, conta aos risos.

Além de ator, é publicitário, produtor, DJ, comediante, designer, apresentador e diretor. “Gosto de pensar que sou um movimentador cultural por que me interessam todas as formas de expressão da arte. Hoje me considero um ator não só porque este é meu principal trabalho, mas também porque é na arte que pulsa o meu propósito. Conheço bem o poder transformador do teatro e meu maior desejo é poder compartilhar essa transformação. Assim surgiu o meu encontro com o CRIA”, descreve.

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