Ela já serviu de rota para o transporte de tropas do exército, na Segunda Guerra Mundial. Já foi refúgio para veranistas e lugar para passeios dominicais. Hoje, com cerca de 6 mil habitantes, a Estrada Velha do Aeroporto – EVA guarda paradoxos sociais inimagináveis. Bairros sem infra-estrutura básica são espremidos agora por grandes empreendimentos imobiliários e tem até remanescentes de comunidades “primitivas” que vivem de forma bucólica e pastoril em pleno século 21 e em meio à urbanidade.

Na entrada de Manoel da Tábua, lugarejo escondido entre os pouquíssimos resquícios de Mata Atlântica na EVA, um guardião esculpido pelas ironias da natureza dá felicitações aos aventureiros visitantes. No local, a pesca de subsistência, o sorriso singelo e a hospitalidade dos moradores nos remetem à uma cidadezinha do interior.

O meio ambiente está cedendo lugar a empreendimentos de moradia de luxo que não condizem com a realidade do local. Localizada na porção norte da cidade, no Km 12, a EVA possui 11 condomínios construídos e oito em construção.

Sentado em sua cadeira, o homem, à sombra da árvore, descansa alheio às transformações sócio-culturais que acontecem ao logo dessa estrada que começa no bairro de São Cristóvão e segue até a BR 324, cortando nove grandes bairros e mais uma dezena de comunidades menores.

O Alpha Ville 2 é um dos gigantes imobiliários que está se instalando na região. Entretanto, sua característica de “Muralhas invisíveis da Babilônia Moderna”, como definiu Nicolau Sevcenko – sobre essa forma de isolamento social – é gritante. Até uma avenida exclusiva para o condomínio, ligando-o diretamente à Paralela, está em construção.

Só o que precisam é do anonimato. A visibilidade às vezes pode privar-lhes do sossego. Eles não querem muito… “eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde, para plantar e para colher. Ter uma casinha branca de varanda…”!

A EVA está situada no chamado miolo urbano de Salvador, que compreende cerca de 41 bairros e uma faixa de 35% do espaço urbano. A cidade tem crescido para está porção. Mas, o mais intrigante é que muito pouco ou quase nada tem sido feito pelo Poder Público para melhorar as condições de vida quem vive aí, fora dos muros dos condomínios particulares.

E mais condomínios vão ser feitos. Sítios, associações, toda extensão de terra estratégica está sendo adquirida para a construção de condomínios. A famosa construtora Tenda, entre outras, possui três empreendimentos em construção na EVA.

Cerca de 30% da população de Salvador mora em invasões, isto indica que há um déficit habitacional de 80.000 domicílios na capital baiana. Contudo, a ocupação desordenada na EVA, à época de sua criação – em 1943/1944 – e com o decorrer dos anos, formou muitos bairros carentes de infra-estrutura básica.

O olhar predador da especulação imobiliária na região não afasta, por exemplo, índices elevados de violência no local. Dos 60% de assassinatos em Salvador, em 2007, 11% foram na EVA. Políticas públicas para a comunidade poderiam vir na carona desses condomínios de luxo, heim?!

A Janela! Ela que figuradamente pode indicar esperança, liberdade, passagem, olhar… Aqui, é preenchida de olhares que clamam por serem vistos. Pequenos, à beira da miséria, mas felizes. Felizes pois ainda não lhes roubaram a principal riqueza: Sonhar!!!

Fotos | André Frutuoso/BNL e André Gomes

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