A sociedade está doente. Isso é um fato comprovadamente repetido pela ciência. Grande parte da culpa é atribuída às novas tecnologias e a carga de trabalho estressante, que nos submetem todos os dias. Não há tempo para pausas longas, apenas para suspiros rápidos e inquietações passageiras. Está todo mundo bem, ainda que com os ombros pesados de carregar toneladas de trabalho, responsabilidade e projetos. Todo mundo, em todo lugar, está fazendo alguma coisa até a madrugada. Computadores ligados, cérebros raciocinando, mãos que digitam sem cessar nos smartphones.

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– Estamos resolvendo coisas por aqui, eles dizem. – Ai de mim se não fosse tal aplicativo, eles mentem. – Só vou terminar mais essa demanda RA-PI-DI-NHO, eles enganam. E enquanto isso, a vida passa, o tempo acaba e as relações minguam. – O afeto não mora mais em nossa rotina, lamento afirmar. Alguém enterrou o afeto longe dessa civilização e não há forma de trazê-lo de volta (Será?). Estamos nos matando dia após dia, nos ferindo abertamente e sem o menor pudor. Andamos esquecidos dos pilares básicos da educação familiar: por favor, com licença, obrigado, olho no olho, e tantas gentilezas mais. Gentileza, que por sinal é uma palavra rara neste novo vocabulário utilizado. Há muito rumor em nossas rotinas. Há muito que o mau humor nos afetou e (talvez) nem estamos percebendo. O que falta para sairmos deste lugar?

Amar.

Amar sem medo de cair no poço. Amar o outro sem esperar em troca. Amar mergulhando fundo no afeto que a alma pode dar. Se amarmos mais, responderemos menos de forma grosseira ao outro. Iremos magoar menos, ferir menos, errar menos e, sem dúvidas, existir com mais qualidade de vida. Andamos tão estressados que as relações estão trincadas, os diálogos mal resolvidos, amassados, embrutecidos, cheios de raiva, ressentimentos, rancor. O terreno é infértil e as sementes não brotam por mais que precisemos. Estamos nos maltratando. Tratamos mães, pais, namorados, esposas, colegas de trabalho, empregados, colaboradores, amigos, muito mal, muito mal. E atribuímos ao estresse, ao cansaço, ao trabalho, aos erros dos outros. Até quando?

A pergunta é essa: até quando iremos continuar machucando os outros só porque não estamos satisfeitos? Ou porque a nossa vida está estressante pra caralho? Ou: – Você está perguntando o óbvio, como quer ser respondido? A nossa paciência se esgotou e estamos maltratando os outros sem nenhum incômodo ao fazer isso. E os erros são sempre os mesmos. Não é o que a gente fala, mas o tom que se usa, a forma com que se é dito. Ao invés de dizermos que estamos cansados para responder, ferimos. Ao invés de negar algo argumentando com afeto, magoamos. Ao invés de dizer que não, agora não, tenho muito trabalho e não posso parar, estou fazendo algo importante agora, nós apenas gritamos e afastamos quem quer que seja para outro lugar. Não podemos nos atrapalhar. Há trabalho, muito trabalho, estou trabalhando, estou agindo, estou resolvendo, estou no mundo, estou teclando, sou uma máquina, sou uma máquina destruidora de relações, sou uma máquina, estou teclando agora, não tenho afeto, não preciso de você… e seguimos loucos e cegos. Respondemos mal, tratamos mal, agimos mal, ferimos e seguimos sem nos afetar.

Até quando?

Até quando o amor acabar?

Talvez.

Não há tempo pra pensar sobre isso agora, estamos no meio de uma reunião, de uma conversa, estamos correndo, cansados, tenho um trabalho, estou indo, estou correndo, sou uma máquina, tenho que sair, um beijo, bata a porta, depois nos falamos, depois resolvemos, depois…

E o tempo, arbitrário, não nos permite voltar para consertar nada.

Até quando?

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