A série revivendo boas histórias da estrada continua neste mês de fevereiro. O Bahia na Lupa rememora reportagens antigas de alguns roteiros de viagem por nosso imenso território baiano. Gente, lugares, comidas, costumes…

Pooom, pooom, pooom… O estampido sonoro do trem das onze rasgava o silêncio daquela noite escura e fria no meio do sertão sisaleiro da Bahia. O vuco, vuco do maquinário da locomotiva de passageiros, cada instante mais próximo, avisava a proximidade à estação de Serrinha.

Linha Férrea da antiga rota do trem de passageiros na região sisaleira baiana | Foto: Cadu Freitas/BnL

Linha Férrea da antiga rota do trem de passageiros na região sisaleira baiana | Foto: Cadu Freitas/BnL

Lá, em um boteco iluminado à luz de candeeiro, com meia dúzia de cadeiras mancas e uma mesa enferrujada da antiga cerveja Antarctica, um grupo de quatro amigos bebuns aguardava o trem das onze para voltarem para suas casas, em Salgadália, próximo destino da velha locomotiva, que depois seguiria para Santa Luz.

Chapéu de palha na mão esquerda, e equilibrando-se com o copo à meia dose de cachaça “poderosa”, feita com uma mistura de várias outras, Tonho Xeba alertava sua turma: “Rumbora, cambada. O trem lá vem chegando”!

Zé Galinha, Cara de Bode e Mané Cachorro logo viraram o resto da pinta envelhecida em seus babados copos, aprumaram as calças e, de pé, uns escorados nos outros, adentraram em um salto malabárico, digno dos bons bebuns, ao velho trem.

Sem mais nenhum mirreis nos bolsos, os amigos de copo iriam empreitar uma esperteza para cima do cobrador da locomotiva, que a essa hora já rasgava a vegetação no breu alumiado pelo céu estrelado e enluarado do sertão.

“Passagens!”, pediu o velho cobrado de barba por fazer e expressão facial de pouco tolerância com aqueles bebuns passageiros.

“Não temos”, responderam uníssonos e às gargalhadas, os quatro amigos.

O cobrador não tardou em maquinar um castigo para tal espécime de cachaceiros fanfarrões. Com um sorriso de canto de boca e moderada dose de picardia perguntou: “Vocês vão pra onde, seus cabras”?

Com a malandragem empírica de bom cachaceiro, Tonho Xeba não tardou em ludibriar o velho cobrador: “Vamos para Santa Luz”! Zé Galinha, Cara de Bode e Mané Cachorro se cutucaram ao entender que Xeba não estava variando das ideias, já que deveriam saltar uma estação antes. E riram entre si.

Quando o trem parou na Estação de Salgadália, o cobrador expulsou os quatro bebuns: “Vocês vão ficar é aqui, seus pestes. Só assim vão aprender a guardar o dinheiro do bilhete do trem”!

Depois de se equilibrarem no chão de terra cinza e fina, viraram-se de frente para o trem e, com uma clássica e sincronizado “banana”, gritaram para o velho e inocente cobrador: “Aqui pra você, seu frouxo! A gente mora é aqui mesmo”! E gargalharam sem parar!

Com cara de bunda, o velho cobrador via o trem zarpar rumo à Santa Luz e os bebuns à zombarem de sua cara, abraçados, equilibrando-se uns nos outros, seguiam para suas casas à cantar: “Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito… quás, quás, quás, quás, quás, quáscarim dum dum, quáscarim dum dum, quáscarim dum dum”…

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