Quem pensa que o futebol nada tem a ver com a política, precisa bater um papo com Jesus, um galego amigo meu que mora na região da Galícia, no noroeste da Espanha, mas tem fortíssimos laços com a Bahia, para onde parte de seus familiares migrou na década de 1930, a fim de fugir da guerra e vislumbrar a esperança na América, longe do “velho mundo”.

Estive com Jesus e outro amigo muito querido, Renato Santarém, ex-diretor do Galícia Esporte Clube, às vésperas da Copa do Mundo, em um restaurante da Boca do Rio. O galego ficará em Salvador até agosto. Depois, volta para a sua terra mater, sua pátria galega, até porque ele não reconhece a Espanha.

Jesus argumenta que a Galícia não precisa da Espanha para absolutamente nada. “Temos nossa própria cultura, nosso idioma, nossa economia e somos um povo descendente dos celtas”, justificou o galego. Ele afirmou, inclusive, que torceria contra a Espanha nesta Copa do Mundo, o que despertou os olhares curiosos das pessoas que estavam nas outras mesas. O que será que elas pensavam: “como assim, um espanhol torcerá contra a Espanha???”.

Mas Jesus, como eu já expliquei, não se sente espanhol. Jesus é galego. Suas bandeiras são, somente: o Galícia, o Celta de Vigo e a Galícia. Talvez por essa razão, ele tenha ficado revoltado quando soube que o granadeiro azulino, “demolidor de campeões”, resolveu homenagear a Espanha com uma camisa vermelha. “Eduardo Castro de la Iglesia [fundador do Galícia, em 1933] deve ter morrido de desgosto no túmulo”, bradou indignado. “Só comprarei as camisas azul e a branca, com a faixa da bandeira da Galícia em diagonal!”

Nesta mesma noite, na Boca do Rio, Jesus aproveitou para ampliar sua mágoa com as instituições de origem galega, baseadas em Salvador, que reconhecem a Espanha como pátria, em vez de a Galícia. “Certa vez fui ao Caballeros de Santiago e vi que as salas levam os nomes de personalidades como Cervantes, que nada tem a ver com a Galícia, um absurdo! Nós tivemos Rosalía de Castro, uma das maiores poetisas do mundo, Xosé Neira Vilas, Ramón Cabanillas Enríquez!.”

Enquanto o mundo procura uma resposta para a eliminação precoce da atual campeã do mundo na Copa, logo na segunda rodada, veio-me em mente a conversa que tive com Jesus há cerca de um mês. Há quem diga que “la fúria” pecou por não ter conseguido renovar a geração brilhante que começou a ganhar tudo a partir de 2008. Outros defendem que os comandados de Vicente del Bosque já ganharam tanto, que perderam o estímulo por novas conquistas, o desejo, o “sangue nos olhos” que sobrou para holandeses e chilenos. Também ouvi que o “tic taka”, o sistema de toques rápidos e envolventes, detentor da posse de bola, sobretudo no meio campo, não surte mais efeito, pois já está manjado.

Mas nada me tira da cabeça que, em verdade, a Espanha ficou pelo caminho graças a secação de um galego com nome de Salvador. A secação de Jesus é pior do que uma arrancada de Robben, mais sublime que o mergulho de Van Persie, quão letal quanto um chute de Aránguiz.

A essa altura do dia, Jesus – se bem o conheço – deve estar balbuciando silenciosamente, maliciosamente, esses belos versos de Rosalía, imortalizados na obra Cantares Galegos (1863):

Adiós, ríos;
adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.

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