Amadurecida e com uma musicalidade ainda mais planetária, a cantora Marcia Castro, um dos ícones modernos da chamada Nova MPB, falou do seu novo álbum, ‘De Pés no Chão’, com exclusividade ao Bahia na Lupa. Fora da Bahia desde 2008, a cantora expandiu seu universo musical, morando em São Paulo, e tem levado sua ‘Pipoca Moderna’ aos quatro cantos do país. Como boa baiana, acredita que trabalhar junto é inspirador. Não é a toa, a artista traz em sua trajetória musical parcerias com Tom Zé, Zelia Ducan, Marcela Bellas, Maryana Aydar, Ana Canãs, Rita Ribeiro e muito mais. Conheça um pouco mais as histórias de sucesso de Marcia Castro e do seu segundo disco, ‘amplificadas por nossa lupa’.

Marcia Castro no show de lançamento De Pés No Chão no Teatro Castro Alves (BA) - Foto: Divulgação

Marcia Castro no show de lançamento De Pés No Chão no Teatro Castro Alves (BA) – Foto: Divulgação

Marcia, de “Pecadinho” a “De Pés no Chão”, qual a essência dessa sua trajetória musical? Há algo que demarca uma evolução de trato de um álbum para o outro ou ambos se locupletam?

A essência do meu trabalho é a entrega e intensidade que constituem o meu fazer artístico, musical. São também as diversas trocas que se estabelecem, sejam essas com artistas, ou amigos, ou casualidades para as quais estou aberta e atenta e que vão dando corpo a minha música. Os dois álbuns não foram pensados como complementares, nem como continuação. Mas é perceptível o link que existe nas duas obras. É a minha unidade essencial. Obviamente, a mudança para São Paulo foi fundamental para o amadurecimento da minha música.

 “O que eu quero mesmo é pôr meus pés no chão”… Esse novo CD revela aos fãs um contexto mais universal, planetário, em se falando da diversidade de temas e de nuances musicais, em comparação com o anterior?

Penso que os dois álbuns tem uma ampla diversidade de temas, discursos e sonoridades. A diferença básica entre ele é que o Pecadinho, além de ser um disco de estreia, é um disco concebido em estúdio. E o De Pés no Chão é um disco concebido no palco. Isso difere essencialmente a sonoridade de ambos. Também sinto que a Bahia está mais presente no Pecadinho, canto coisas relativas à cidade, as minhas experiências na cidade, pois era ali que eu estava quando concebi o trabalho.

Show na Concha Acústica do TCA | Foto: Divulgação

Show na Concha Acústica do TCA | Foto: Divulgação

Bastidores de uma Salvador noturna, com desigualdades latentes, sobretudo para a mulher, marcaram o álbum Pecadinho. Em 2008 você saiu da Bahia com destino a São Paulo, olhando o cenário de fora é possível constatar mudanças?

Muitas mudanças. Salvador está cada vez mais violenta, mais desigual, mais caótica. Enquanto os números da economia mostram um grande avanço, socialmente a gente percebe um retrocesso, principalmente depois de um governo horroroso feito pelo último prefeito, que foi destruindo gradativamente a cidade.

Ana Cañas, Marcia, Rita Ribeiro e Marcela Bellas em show do projeto Pipoca Moderna | Foto: Divulgação

Ana Cañas, Marcia, Rita Ribeiro e Marcela Bellas em show do projeto Pipoca Moderna | Foto: Divulgação

Sua Pipoca Moderna, mas do que afinidades musicais e talentosíssimas apresentações, revela um modo novo de sustentabilidade musical para artistas que nadam na contramão do mercado fonográfico desigual?

Sem dúvida. Minha geração tem desenvolvido esquemas muito novos e interessantes de gestão de carreira. Aqui em São Paulo, isso já se encontra num estágio bastante avançado, pois a cena independente vem se formando e desenvolvendo há algum tempo. Não existe mais ilusões acerca de ascensão por contrato com uma grande gravadora. Aliás, vejo que isso nem é de fato o desejo nosso. Novos modelos, novos formatos, um jeito novo de fazer. Isso que nos interessa. Pipoca Moderna é isso.

Em show de homenagem a Sérgio Sampaio, com Jards Macalé, Zeca Baleiro, Luiz Melodia | Foto: Divulgação

Em show de homenagem a Sérgio Sampaio, com Jards Macalé, Zeca Baleiro, Luiz Melodia | Foto: Divulgação

Como uma boa baiana, acredita que a lógica do sucesso é juntar a turma? [isso pelas numerosas parcerias que mantém ao longo de sua carreira]

Sempre brinco que baiano é igual a corda de caranguejo: vive em turma, em bando. Encontrar uma turma e formar outras tantas é algo natural, espontâneo em mim, como boa baiana e sagitariana. Não penso que seja uma lógica, mas para mim trabalhar coletivamente é inspirador.

Marcia em uma de suas parcerias, com Gilberto Gil, no Festival Natura Musical MG | Foto: Divulgação

Marcia em uma de suas parcerias, com Gilberto Gil, no Festival Natura Musical MG | Foto: Divulgação

Marcia Castro é, hoje, uma das referências dessa chamada “Nova MPB”. Isso, poderíamos dizer, é fruto de uma qualidade musical e, digamos, antropológica, dos temas de suas canções ou é resposta às suas batalhas pessoais para tal?

As duas coisas são muito importantes para todas as conquistas que tive, que tenho e que, com fé, continuarei a ter. Sou uma romântica realista, acredito na entrega intensa, profunda, desmedida e impulsiva, que inevitavelmente te lança num trabalho braçal. Tudo se mistura em mim: as batalhas pessoais, as entregas artísticas. Quando você tem uma grande ideia, quando compõe uma obra na qual você acredita, sem dúvida você vai se lançar num trabalho exaustivo até que isso se realize. Comigo é assim.

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Se você tivesse uma ‘lupa de aumento’, o que amplificaria na Bahia?

Os baianos, esse povo tão criativo, afetivo e verdadeiro. Sou apaixonada pelas pessoas do meu lugar.

Assista ao videoclipe ’29 Beijos’ do novo CD de Marcia Castro:

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