Pesquisa nacional realizada no mês passado pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), intitulada Análise das Instituições Públicas Brasileiras, aponta a Polícia Federal (PF) e as Forças Armadas como as instituições públicas de maior credibilidade para os brasileiros. Em meio a estes indicadores, somados ao aumento da violência em Salvador, crianças e adolescentes de bairros populares e de bairros nobres da cidade falam sobre Segurança Pública.

“Quando eu crescer quero ser das Forças Armadas, da Aeronáutica. Quero proteger as pessoas e ser um exemplo”, se entusiasma o pequeno Marcos Filipe Silva, de 8 anos. Assim como Filipe 74,7% dos brasileiros apontam as Forças Armadas como o segundo órgão mais confiável. O primeiro lugar fica com a Polícia Federal, 75,5%.

A agente Ana Paula Schramm, chefe do departamento de Comunicação da Polícia Federal de Salvador, diz que o sucesso da PF está no trabalho “com profissionalismo e entusiasmo” dos policiais e no aperfeiçoamento dos agentes e dos equipamentos de trabalho. Para ela, os criminosos têm se aprimorado e a PF deve acompanhar este avanço, para então combatê-los com eficiência.

“O crime transcende as fronteiras dos estados e a PF pode deslocar equipes para estes estados. Isto dá credibilidade ao nosso trabalho”, explica Ana Paula Schramm. A agente diz ainda que a PF está orgulhosa por ocupar a preferência dos brasileiros.

Maíra Barbosa, 11 anos, moradora do bairro de São Cristóvão, diz confiar muito na PF e considera-os um exemplo. Já o policiamento das ruas feito pela Polícia Militar é visto com cautela. “Tem muitos policiais corruptos, que ajudam os bandidos e com isso fazem mal para a sociedade”, arrisca Maíra. O pensamento dela é defendido pelo amiguinho Marcos Felipe. Além deles, outras crianças e adolescentes apontam os principais “pecados” cometidos por policiais, apesar de tê-los como heróis.

Lucas Sena, 13 anos, também morador de São Cristóvão, acredita que não há mais policial honesto. Ele relata ter perdido a confiança na polícia pelo que diariamente assiste nos telejornais. “Vejo corrupção, policiais matando ao invés de salvar”. Assim como Lucas, Rachel de Oliva Perdigão, também de 13 anos, moradora do Itaigara, se lamenta por não poder mais confiar na polícia.

“Não sei o que eu faria se morasse em um bairro periférico. Aqui temos segurança particular e o policiamento é ostensivo. Eu fico indignada, pois acho que deveria ter mais policiais nos bairros onde as pessoas têm medo de sair na rua por causa da violência”, diz Rachel. Ela fala que policiais que abusam do poder se tornam vilões.

“Policiais que agem com violência são mau exemplo para nós crianças, e os governantes deveriam interferir mais nisso”, desabafa Maíra Barbosa. Preocupada com esta imagem negativa a Polícia Militar da Bahia desenvolve o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd). A iniciativa abrange escolas públicas e particulares de Salvador e se destina a orientar os estudantes da 4ª à 6ª série do ensino fundamental quanto ao perigo do “mundo do crime”. O programa tem como principais educadores a soldado Virgínia Pinho e o sargento Antônio Encarnação.

Brincadeira – Quando o assunto é brincar de “polícia e ladrão”, meninos e meninas entrevistados são unânimes: “gosto de ser da polícia”! Lucas Sena explica que na brincadeira ele pode ser um policial honesto e fazer as coisas certas, “diferente do que vejo na realidade”. Juliete Silva, 13 anos, de São Cristóvão, e Caio Sacramento, 8 anos, do Rio Vermelho, dizem que escolhem ser “da polícia” para serem os heróis.

“Ser da polícia dá certo poder, por isso escolhem ser policial na brincadeira. Esta idéia de ver os policiais como heróis, àqueles que salvam vidas, ainda faz parte do imaginário popular. Por ser uma criação coletiva, uma representação social que ajuda na comunicação humana, o imaginário é cheio de visões de mundo, mitos e valores”, explica José Maurício Daltro, sociólogo do Centro de Estudos de Ação Social de Salvador (Ceas). Daltro fala ainda que a imagem paradoxal que estas crianças têm da polícia é apenas um reflexo da atuação dessa mesma polícia, “às vezes violenta, outras vezes dando exemplos de cidadania”.

Realidade – O adolescente Lucas Sena diz ter presenciado um tiroteio na rua dele. “O ladrão corria em minha direção e os policiais o perseguiam, atirando. Eu me joguei no chão e saí rolando. Foi horrível! Naquela noite eu não comi nada e nem consegui dormir”. Lucas conta ainda que sente muito medo de sair de casa com receio de que o fato volte a acontecer.

Tendo contato ou não com a violência urbana essas crianças apresentam sugestões para resolver este problema. Lucas acredita que expulsar os policiais corruptos da corporação seria um bom começo. Já Marcos Filipe diz que a solução é acabar com as drogas, o cigarro e as bebidas.

Para Rachel de Oliva Perdigão, resolver o problema não depende só do Poder Público. “Cada pessoa precisa fazer sua parte. Eu acredito que este cenário de violência um dia vai mudar, pois eu estou a fim de fazer a minha parte”.

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