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Torcida organizada Fúria Aurinegra acompanha o “mais querido” /Foto: Site Oficial e Erik Salles / Ag. Servphoto

“Outros clubes do futebol baiano podem ser mais ricos, mais prósperos, mais badalados pela imprensa, donos até de maior torcida e de maior número de títulos recentes. Nenhum de tão gloriosa tradição quanto o Esporte Clube Ypiranga. Se o visitante tiver de escolher um clube de futebol, escolha o Ypiranga.” Eram meados dos anos 1940 quando Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, citou o trecho acima no livro Bahia de Todos os Santos.

À época, o aurinegro da Vila Canária já havia conquistado o Campeonato Baiano nove vezes (a décima e última conquista viria em 1951), e representava uma das principais forças do futebol do estado. Time do coração de torcedores ilustres como Jorge Amado, Irmã Dulce e João Gilberto, o Ypiranga nasceu em 1904 como Sport Club Sete de Setembro por meio de jovens operários soteropolitanos excluídos da sociedade por vários motivos, tais como econômicos, étnicos e sociais. Dois anos depois, sua nomenclatura passaria a ser Sport Club Ypiranga, o “mais querido”, o clube do povo.

Contudo, o maior campeão baiano depois de Bahia e Vitória, vive atualmente um longo inverno de decadência. Rebaixado para a segunda divisão do Baianão em 1999, o Ypiranga chegou a ficar com o futebol desativado por alguns anos, distante dos holofotes e a anos-luz dos tempos áureos em que craques como Apolinário Santana, o Popó, Zizo e André Catimba infernizavam a vida dos adversários.

Renascimento

Mas um facho de esperança surgiria em 2009. Em um programa de rádio de Salvador, o ex-goleiro e então comentarista esportivo Emerson Ferretti se sensibilizou com a situação do clube, ao ouvir, informalmente, o relato do ex-presidente Valdemar Filho. Foi aí que Ferretti se ofereceu para ajudar o aurinegro. “Assim eu comecei a ajudar o clube e, no fim daquele ano, fui eleito vice-presidente”, relembra.

A situação do Ypiranga, contudo, era mais difícil do que ele imaginava. “O clube estava abandonado. O único bem era a Vila [Canária], que estava arrematada em um leilão pela Receita Federal. Além disso, nós sabemos que o time jogando é o que dá visibilidade ao trabalho”, observa Ferretti, que hoje preside o “mais querido”.

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Ex-goleiro de Bahia e Vitória, o atual presidente do Ypiranga, Emerson Ferretti (com o microfone), aposta na redenção do clube

Formado em Administração de Empresas pela faculdade Hélio Rocha, o ex-goleiro e sua equipe de trabalho conseguiu suspender a entrega do terreno (de 63 mil metros quadrados) e começou a mudar a situação do Ypiranga. “Fizemos um mapeamento dos problemas para saber o que tínhamos, a começar pela estrutura, negociamos e pagamos dívidas trabalhistas, procuramos a empresa arrematadora e pagamos o débito que gerou o leilão”, recorda.

Volta aos gramados

Depois de aportar recursos do próprio bolso para ajudar a sanar os débitos do clube, Ferretti e equipe promoveram eventos como jantas, reuniram os antigos conselheiros, lançaram e venderam camisas oficiais, além de apostarem em uma estratégia de marketing. A meta era mostrar a sociedade baiana que o Ypiranga estava vivo. Todavia, voltar a colocar o time em campo, literalmente, se fazia uma necessidade fundamental.

Após três anos de ausência dos gramados, o Ypiranga voltaria em 2010. Não foi longe, mas ao menos botou o bloco aurinegro na rua novamente. Já no ano seguinte, com mais investimentos em marketing e no futebol, o acesso à elite bateu na trave, com o “mais querido” chegando a terceira colocação. Em 2012, uma espécie de tragédia grega assolou o clube do povo e silenciou milhares de torcedores e simpatizantes no estádio de Pituaçu: derrota de virada para a Jacuipense depois de terminar o primeiro tempo na frente. O retorno à primeira divisão, que parecia tão próximo, esvaía-se como bruma.

Nova chance

Entretanto, o sonho não acabou. A partir do dia 16 de março, o Ypiranga dará início a sua caminhada no Campeonato Baiano da Segunda Divisão de 2014. A partida de estreia será contra o Itabuna, em estádio ainda indefinido. Para jogar em Pituaçu, que pertence ao governo do Estado, é preciso pagar, o que já fez com que clubes de menos recursos da capital, como Galícia e Botafogo, recorram muitas vezes a parcerias com prefeituras do interior para jogar distantes de Salvador.

Os demais adversários do Ypiranga na luta pelo acesso à elite serão: Atlético de Alagoinhas, Colo Colo, Flamengo de Guanambi, Fluminense de Feira, Ipitanga, Jacobina, Jequié e Leônico. A competição, disputada no sistema de pontos corridos, premia os dois primeiros colocados com as vagas à primeira divisão de 2015.

No fim de 2013, o clube se reformulou administrativamente ao contratar novos diretores para as áreas jurídica, de futebol e de marketing. O carro-chefe do aurinegro, o futebol ficou sob o comando de Gil Baiano, ex-jogador com passagens pelo Bahia, Vitória, Juventude e Caxias.

Foco no social

Ferretti aposta no fator social para alavancar o futebol do clube. Situada numa região vulnerável de Salvador, onde estão cerca de 20 bairros de baixa renda, a Vila Canária abriga hoje o projeto Canarinho, desenvolvido pelo Ypiranga em parceria com o Instituto Íris, que beneficia 400 crianças – o patrocínio é da Petrobras. O dirigente pretende atrair mais empresas com iniciativas semelhantes para financiar ações no local.

“O trabalho fora de campo é quase invisível para o torcedor. Estamos pagando dívidas antigas, arrumando a casa, preparando o crescimento. Quando for para a primeira divisão, a base estará preparada”, antevê Emerson Ferretti, ao reforçar que, no futebol, um grande trabalho de empreendedorismo não basta.

Uma ajudinha do céu, de Jorge Amado, Popó ou da beatificada Irmã Dulce também são bem-vindas.

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