“É realmente difícil separar eu mesma de você porque, diferentemente de  todos ao meu redor, eu não tenho outro lugar para chamar de casa. Nós conversamos muito sobre você. Você é fria e severa, mas ao mesmo tempo colorida e divertida. Obrigada por me tolerar”.

Frame do curta de Jeff Rikhotso’s, um dos trabalhos de “30 Days and A City” | Foto: Divulgação

Frame do curta de Jeff Rikhotso’s, um dos trabalhos de “30 Days and A City” | Foto: Divulgação

As palavras da fotógrafa Nozuko Mapoma são um diálogo entre ela e sua cidade, Johannesburgo, que mostra a complexidade que caracteriza as relações entre as pessoas e os lugares onde vivem. Essa é a ideia do projeto “30 Dias e a cidade”, criado pelo designer Rendani Missblacdropp nas ruas de Johannesburgo e do qual Mapoma participa: apresentar perspectivas mais amplas e não dicotômicas entre cidades e seus habitantes a partir de intervenções artísticas.

Em entrevista ao portal This is Africa, Rendani explica que as ideias clichês sobre Johannesburgo o incentivaram a desenvolver a iniciativa: “Ela nasce do sentimento de frustração com os estereótipos sobre a cidade. As pessoas visitam mas não interagem realmente com ela.” A partir de um post em seu blog, Rendani convidou moradores de Johannesburgo a documentarem em poemas, vídeos e ilustrações suas experiências cotidianas com a cidade.

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O projeto, de caráter colaborativo, fez Rendani selecionar seis pessoas, entre fotógrafos, designers, ilustradores, escritores e músicos, para dar início à empreitada. O grupo teve trinta dias para propor intervenções que contassem a história da cidade e que dialogassem com seus moradores – uma tentativa de jovens artistas reconstruírem não só Johannesburgo, mas também outras grandes cidades do mundo.

Na experiência, os participantes realizaram diferentes propostas a partir de variadas linguagens artísticas. Além de fotos, Nozuko Mapoma, por exemplo, também escreveu pequenos relatos diários de sua relação com a cidade, mostrando como a grandeza do centro urbano pode não ser uma parte agradável da experiência de habitá-lo.

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Esse é o exemplo do relato “Tenho que sair do apartamento”, de 16 de Fevereiro de 2014. Nele, Mapoma diz que detesta dias corridos porque situações sufocantes são terríveis “quando tudo o que você quer é espaço e silêncio”. Outro fato destacado pela artista é a experiência com o transporte público. Para ela, o mais excitante ao usar os ônibus como meio de transporte é a “habilidade de ser parte da cidade sem ser realmente afetada por isso”, sendo o ônibus uma espécie de bilhete de entrada para uma galeria de assentos que te dá acesso a um reality show televisivo.

“Femme” – Andile Buka | Foto: Divulgação

“Femme” – Andile Buka | Foto: Divulgação

Outra proposta intrigante de “30 Dias e a Cidade” é a série “Mulher”, elaborada pelo fotógrafo Andile Buka. Segundo texto publicado pelo fotógrafo no blog de Rendani, o intuito da série “Mulher” era acabar com a necessidade das mulheres dizerem “me amem, me desejem, me reverenciem”. De acordo com Buka, mulheres africanas nem sempre estão preocupadas com sexualidade, como ocorre no Ocidente: “Nós estamos quase sempre elaborando os nossos próprios padrões e redefinindo o que é sexualidade”.

“Femme” – Andile Buka | Ffoto: Divulgação

“Femme” – Andile Buka | Ffoto: Divulgação

Talvez unir mulheres e cidades a partir de fotos que exponham as vulnerabilidades de ambas produzisse objetos apenas frágeis. Mas não é isso que as fotos de Buka fazem. Ao mostrar a a subjetividade sedutora, vulnerável e livre da mulher e da cidade, o fotógrafo ressignifica o lugar de ambas, colocando-as como protagonistas de suas próprias narrativas. “É difícil imaginar que ainda hoje as mulheres precisam de permissão para justapor estereótipos sexuais”, analisa Buka.

Assim, uma das problemáticas centrais para a realização do “30 Dias e a cidade” é a tentativa de fazer intervenções que mostrem não só a violência, mas também a gentileza dos centros urbanos. A arte pensada a fim de mostrar as contradições e a diversidade de narrativas que traduzem as cidades – dentro e fora da África.

“Femme” – Andile Buka | Foto: Divulgação

“Femme” – Andile Buka | Foto: Divulgação

A partir de uma perspectiva densa, o projeto não dicotomiza as metrópoles africanas a fim de reproduzir estereótipos, mas concebe as contradições desses lugares como mola propulsora para a mudança. Como se expor a ferida fosse etapa fundamental para produzir a vacina contra a correria, a falta de tempo e a desumanidade que podem habitar essas grandes cidades.

*Por Alessandra Alves/Afreaka

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