A noite caia serena no nostálgico Passeio Público, “quartel general” dos praticantes e amantes da arte de resistência da Bahia, que abriga o cinquentenário Teatro Vila Velha, quando, entre uma ajeitada e outra nas madeixas e no colar de contas, Jorge Washington, militante ator do Bando de Teatro Olodum, recebeu o Bahia na Lupa para um bate papo. No enredo, de cara, um desnudar da situação de momento do teatro baiano, as dificuldades financeiras e oposição “artista Vs. artista”, o clímax com a consagração do Bando para além dos muros da Bahia, os exemplos de Lázaro Ramos e Érico Brás… Quase um longa-metragem de pura reflexão sobre o teatro neste território africano chamado Salvador.

Jorge Washington contemplando o ensaio de Cabaré da Raça no palco arena do Vila Velha | Foto: Cadu Freitas/BnL

Jorge Washington contemplando o ensaio de Cabaré da Raça no palco arena do Vila Velha | Foto: Cadu Freitas/BnL

 

O teatro baiano, hoje, vive ou sobrevive?

Sobrevive! Por uma série de questões. É uma galera combativa, que não desiste, que tenta de todas as formas fazer, como o Bando de Teatro Olodum, que é meu grupo, e está há cinco anos sem patrocínio, não conseguirmos grana, um apoio, o mínimo sequer, nada. Mas a gente insiste e não desiste. Essa temporada nova do espetáculo Cabaré da Raça vamos fazer ‘na tora’!

Sem apoio algum?

O apoio que a gente tem é de alguns amigos estilistas que resolveram vestir alguns personagens, mas de apoio financeiro, absolutamente nada. E isto é uma dificuldade, eu não entendo, pois a gente produz uma arte tão genuína, o Brasil todo se rende à Bahia quando saímos daqui, os espetáculos são aclamados aonde vão. A Bahia é um estado rico, que gera riqueza. Não entendo como esse Polo Petroquímico não consegue entender isto, investir. Não entendo como essas cervejarias que ganham tanto dinheiro na Bahia só conseguem investir na mesmice, no carnaval, no entretenimento fácil!

Sempre foi assim?

Sempre! Nunca foi diferente e acho que a gente tem “emburrecido”, pois cada dia vai ficando pior. Em vez de a gente avançar, só piora. Se for fazer um apanhado do que está sendo patrocinado e fizer um recorte de qualidade…

Temporadas passadas do espetáculo Cabaré da Raça, do Bando de Teatro Olodum | Foto: João Milet Meirelles/Flickr

Temporadas passadas do espetáculo Cabaré da Raça, do Bando de Teatro Olodum | Foto: João Milet Meirelles/Flickr

Pra você, a Bahia vive uma crise de identidade, tem perdido sua raiz, seja na área cultural ou noutros aspectos sociais?

Não… Não acho que a Bahia perdeu identidade, ela tem tendido pra isso, principalmente na área do entretenimento, mas também tem muita gente do lado de cá, na resistência. Muita gente que não se rende a essa cultura fácil, a esse humor, a essa falsa imagem da baianidade. A Bahia não tem como perder sua raiz, a cultura negra é enraizada na gente, nossa base é muito sólida. Um ou outro vai se desvirtuar, vai correr pro mais fácil, e como a grande mídia só dá cobertura pra esse lado da coisa, parece este ser o que predomina. Mas, na real, não é.

Há dois tipos de teatros, então, na Bahia? Um financiado e outro de militância? Há diálogo entre essas duas frentes?

Eu costumo dizer ‘cada um na sua’. Se esse grupo ou artista está lá fazendo o que gosta, é o que conta, mas tem coisa que eu não saio de minha casa pra assistir. Eu faço esse recorte, sei o que assisto, mas nem por isso vou dizer que o trabalho do cara que eu não saio da minha casa pra assistir não tem o valor dele. Não é o meu valor, é o dele lá. Tem espaço pra todo mundo, cada um na sua.

Alguém em especial estaria nesta “outra corrente”?

Um exemplo, esse humorista que tem aí, não preciso citar o nome, ele faz espetáculo no Teatro Jorge Amado que o ingresso custa R$ 70, e os esquetes do cara são machistas, homofóbicas, depreciativas, é nesse nível. Mas as pessoas adoram, acham que isso é cultura, e vão lá, dão muitas risadas, saem de lá felizes…

Você disse que temos ficado meio “emburrecidos”. O conceito de cultura também tem ficado?

Não só na Bahia, mas no Brasil. Mas isso é do ser humano e não poderia ser diferente aqui. Nós temos é uma raiz fincada, mas é obvio que essa casta que prega que não precisa beber de fonte nenhuma, de raiz nenhuma, que o dinheiro é quem paga – “eu tô pagaaaando!!!” -, então, se “eu tô pagando”, faço o que eu quero… Consome quem quer também!

Jorge atuando no espetáculo Áfricas | Foto: Natália Reis/LabFoto

Jorge atuando no espetáculo Áfricas | Foto: Natália Reis/LabFoto

O teatro, assim como ocorreu com o cinema, teria a valorização que merece se migrasse também para dentro dos shoppings centers?

Não sei se colocasse o teatro nos shoppings ajudaria, pois estes espaços são tidos como elitizados e tendem a elitizar tudo, o que é uma coisa burra, pra mim é um espaço tão popular… Mas, o que eu vejo é a falta de oportunidades. Há o Festival de Teatro do Subúrbio, acontece em Plataforma, é sucesso, é casa cheia. O que é produzido no centro da cidade se desloca pra periferia e as pessoas ficam ‘embebecidas’, felizes, e retornam, indicam aos amigos. Isto é oportunizar uma comunidade que não tem acesso a ter. E quando tem acesso, a comunidade passa a consumir.

A cabeça do público seria, então, a trilha para o sucesso do teatro baiano?

O bando de teatro Olodum tem uma plateia específica. É um público que não se ver em nenhum outro teatro da Bahia. Sabe por quê? Porque lá atrás nós fizemos muita promoção a R$ 1. ‘Ah, mas eu não tenho um real’, então você vai pegar esse papel e caneta e fazer um desenho, escrever uma frase e dizer por que é que você veio ao teatro. Depois você vai trocar essa frase, poesia ou desenho pelo ingresso na bilheteria. E hoje, esse público volta, pagando os R$ 30, que é nosso preço do ingresso, pois é um público fiel.

Estamos falando de gestão do teatro?

A partir do momento, sim, que se leva teatro de qualidade às pessoas que estão afastadas do centro, não porque querem, pois não temos transporte público de qualidade. Então, como é que o cara que mora em Cajazeiras XI vem pro Teatro Vila Velha assistir um espetáculo 20h, no domingo? Aí o cara não vem, se fossemos bem servidos de transporte público, seria muito mais fácil para as pessoas virem ao teatro.

O Bando de Teatro Olodum criou uma forma própria de gerir o teatro, por isso é bem sucedido há tantos anos?

Criou uma forma de resistência, pois os atores do Bando são militantes. Então, a causa de estar no bando é maior que a sobrevivência financeira.

Atuação em outras temporadas de Cabaré da Raça | Foto: Wendell Wagner/LabFoto

Atuação em outras temporadas de Cabaré da Raça | Foto: Wendell Wagner/LabFoto

A produção teatral do Bando, então, é mais formadora de opinião que entretenimento?

É! Porque realmente a gente não sobe no palco “de graça”. O que provoca o bando a ir pro palco é o que está acontecendo no dia a dia no nosso entorno… Fizemos um “Shakespeare baiano”, a partir da nossa cultura, da cultura do tambor, da dança afro, do colorido dos tecidos africanos, vamos buscando esses personagens em nosso entorno, então “Sonho de uma Noite de Verão” foi um dos espetáculos de maior sucesso do bando, inclusive ganhamos o Prêmio Braskem de melhor espetáculo, pois um espetáculo que fomos buscar pessoas de verdade pra fazer este elo: teatro, entretenimento e passar mensagem, a partir de um texto clássico… Sempre que o Bando vai pro palco, vai falando de algo que ele acha não estar certo, tem que ser discutido e refletido. Este é o nosso teatro.

O público do Teatro Vila Velha seria diferenciado do demais? Como isso poderia contagiar a cidade?

Se a cidade se abrisse, seria muito melhor. O Vila Velha, em junho, completará 50 anos e, um teatro gerido por artistas, durante 50 anos, não é pouca coisa não, é muita coisa! Foi criado num momento político ruim, em 1964, na ditadura militar, esses artistas romperam com a escola de teatro e vieram fundar o Teatro Vila Velha… Então, Marcio [Meirelles], China [Carelli] e outras pessoas, junto com o Bando, entramos aqui em 1994 e a nossa pegada é exatamente essa, de manter esse teatro não comercial, não só de entretenimento, é um teatro artístico de reflexão. O público que vem pra cá é diferenciado neste sentido.

Parte do elenco da nova temporada de Cabaré da Raça, ensaiando | Foto: Cadu Freitas/BnL

Parte do elenco da nova temporada de Cabaré da Raça, ensaiando | Foto: Cadu Freitas/BnL

Falta interesse político para a transformação do teatro baiano ou o caminho é a resistência daqueles que militam nesta pauta teatral?

É tudo junto! Não consigo acompanhar o raciocínio de quem gere a cultura neste estado. Brigamos muito pra botar esse governo aí, veio com a proposta de democratizar a cultura, tem feito, mas de forma muito tímida, acho que poderia ter avançado mais. Tem espaço para avançar mais.

Ó Paí Ó, o filme, na sua opinião, foi a janela de maior visibilidade do Bando para o Brasil e para o mundo?

Não se pode negar que fazer um filme, um longa-metragem, com a estrutura que foi fazer Ó Paí Ó, distribuído pra vários países, claro que isso dá uma visibilidade que não tem dimensão. O fato de estar na Globo, um grupo de  atores negros, da Bahia, protagonizando uma série durante dois anos, dentro da maior emissora do país, dá uma visibilidade imensurável. Contudo, o mais importante foi como nós, Bando de Teatro Olodum, captamos isso.

E como foi?

Pra fortalecer nosso teatro! Você repare que está todo mundo aqui, continuamos aqui, resistindo e tentando trazer cada vez mais público pra ver a gente. Ninguém enlouqueceu de achar ‘agora é minha hora de sair pro mundo’, não. A nossa ideia é exatamente essa, fortalecer o teatro, teatro é nosso foco. Aceitamos fazer cinema, televisão, desde que tenha coerência com nosso trabalho.

Lázaro Ramos, do Bando para o mundo. Aqui ele dirige a peça Namíbia, Não! | Foto: André Gomes/BnL

Lázaro Ramos, do Bando para o mundo. Aqui ele dirige a peça Namíbia, Não! | Foto: André Gomes/BnL

Lázaro Ramos saiu do Bando e ocupa hoje um espaço de prestígio na tevê brasileira. Ele é uma referência para o trabalho de resistência de vocês?

Ele saiu daqui muito bem preparado, por isso ele é esse ator que ele é, diferenciado, focado, empreendedor. O personagem mais emblemático que Lázaro fez na televisão brasileira foi “Foguinho”. Ele conseguiu desatar o nó exatamente ali, pois foi muito inteligente, ele mostrou como que a dramaturgia tratava e trata o ator negro, que é aquela forma pejorativa. Mas, por ser muito bom e focado fez o papel daquela forma e gerou a discussão no Brasil, no que gerou a discussão, ele ganhou.

Ele fez este “diferencial” que temos falado na entrevista?

Ele tem uma base, a base do Bando é muito sólida, apesar de ele ter saído daqui muito novo, com 22, 23 anos, já saiu muito focado, não se deslumbrou por estar na Globo, o tempo inteiro é humilde. Ele está lá, mas qualquer oportunidade que tem de colocar o Bando na fita ele bota, sempre. Outro dia ele mandou uma mensagem enlouquecida: “Vai ter a audição pro filme de irmã Dulce, veja aí quem é do Bando que tem interesse”. Ele está com um projeto que é transformar o espetáculo “Áfricas” em seriado, conseguiu uma grana e Chica [Carelli] foi lá, escreveu os episódios… Ele quer muito que o Bando vá lá fazer.

Erico Brás também está neste mesmo elo?

Também! É outro cara focado, sabe o que quer, não está na maluquice, ele tem um canal no Youtube, ‘Tá bom pra você’, onde ele está trabalhando seríssimo, quer ampliar essa ação. O artista do bando é isso, não é acomodado, é empreendedor.

Érico Brás, em cena no episódio "Margarina Black", do canal Tá Bom pra Você | Foto: Reprodução YouTube

Érico Brás, em cena no episódio “Margarina Black”, do canal Tá Bom pra Você | Foto: Reprodução YouTube

E você?

Sou ator do Bando, funcionário público e produtor [produz o Iemanjá é Black, concorrido evento realizado na Festa de Iemanjá], produzindo o bando, o Cabaré da Raça, que vamos voltar a cartaz agora em fevereiro, cuidando da minha filha… Não posso estar posando de artista. Encontro as pessoas na rua aí falam, “ah, me dá um autografo aí”… Por quê?! Posso te dá um abraço, venha aqui, aperte minha mão. É esse tipo de artista que o Bando quer formar.

Sempre com um sorriso no rosto, Jorge narra as peripécias e militância do teatro que faz | Foto: Cadu Freitas/BnL

Sempre com um sorriso no rosto, Jorge narra as peripécias e militância do teatro que faz | Foto: Cadu Freitas/BnL

Há quanto tempo você está no teatro?

Hiiii… Perdi as contas, comecei no teatro no Calabar… Mas pula essa parte, deixa essa coisa de idade de lado… Deixa pra lá… Tenho bastante tempo de experiência no teatro baiano, pronto [brincou]… Comecei a fazer teatro de resistência, comunitário, no Calabar, então não poderia estar em outro lugar agora!

Se você tivesse uma “lupa de aumento”, o que amplificaria na Bahia?

[Alguns instantes de silêncio]… São tantas, teria que ser uma “super lupa”, cara! Porque uma coisa que me incomoda muito é essa juventude na periferia… Vejo uma juventude sem perspectiva, o extermínio da juventude negra me machuca muito, me dói quando ligo a tevê e vejo a espetacularização do extermínio da juventude negra. Então, eu colocaria uma lente de aumento em quem faz a educação neste país, nesse estado, nesta cidade, pois há condições de virar esse jogo, basta investir de verdade em educação, lazer e qualidade de vida!

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