O projeto ‘Baía Mistura’ fará uma homenagem ao movimento paraense Guitarrada na próxima quinta-feira, 15 de dezembro, a partir das 22h, na Borracharia, Rio Vermelho, em Salvador. Os anfitriões da festa, Mamah Soares e o Coletivo di Tambor, trazem como convidados os guitarristas Julio Caldas e Morotó Slim (Retrofoguetes) e DJ Raíz. A entrada é R$ 20,00 (vendas no local).

Cortejo Afro. | Foto: Divulgação

Cortejo Afro. | Foto: Divulgação

O evento, idealizado pelo percussionista e vocalista do Coletivo di Tambor, Mamah Soares, busca promover encontros musicais de ritmos afro-latino-brasileiros. “A Guitarrada Paraense já traz essa mistura do carimbó, do merengue, então, quando se junta à percussão baiana, ao nosso movimento de rua, a musicalidade ferve”, diz Mamah. A primeira edição do Baía Mistura, realizada em setembro, teve “Tropical” como tema e contou com a presença da Suinga Banda e do DJ Riffs. Em novembro, a homenagem foi ao Mês da Consciência Negra e os convidados foram Átila Santanna e Fabricio Mota, músicos da banda Ifá Afrobeat, e DJ Pureza.

Músicos da noite

O Coletivo di Tambor é formado por Mamah Soares (voz e percussão) e pelos baterista Daniel Ragoni, baixista Sérgio Oliveira, guitarrista Angelo Canja e pelos percussionistas Anderson Capacete e Barrak Black. Um dos convidados desta edição é Morotó Slim, músico soteropolitano, guitarrista fundador da banda The Dead Billies (1993) e membro da banda Retrofoguetes. Outro é Julio Caldas, nascido em Ipiaú, em uma família de músicos, autodidata que começou a estudar violão aos 11 anos de idade e, atualmente, toca diversos instrumentos, especialmente guitarra, bandolim e viola caipira. Julio vem se dedicando à pesquisa dos instrumentos populares de cordas. Já se apresentou ao lado de grandes nomes da música brasileira, como Beth carvalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Pepeu Gomes e Danilo Caymmi. Possui seis álbuns lançados, sendo o mais recente Blues, Baiões e Psicodelia. Completando a noite, o Baía Mistura traz DJ Raíz, um dos percussores da Cultura Sound System na Bahia, integrante do coletivo Ministereo Público, primeiro sistema de som do estado, inspirado nos sounds systems jamaicanos. Ele é, também, membro Coletivo Crokant. Raíz já se apresentou em diversas cidades da Bahia, em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Ceará, Pernambuco, e fez, ainda, apresentações em Portugal e Inglaterra.

Morotó Slim. | Foto: Divulgação

Morotó Slim. | Foto: Divulgação

A HISTÓRIA DE MAMAH SOARES E COLETIVO DI TAMBOR

Mamah Soares é percussionista, cantor, compositor, arranjador e produtor musical. Começou a carreira na percussão no início da adolescência em encontros de sambas juninos. “Em casa, eu tocava nas panelas, na mesa, na geladeira. Depois é que eu fui pra rua, tocar em grupos musicais”, lembra o artista. De uma família de músicos, traz sua história arraigada às sonoridades que movimentam a cena cultural baiana. “Meu pai, Toni Merengue, já era percussionista quando foi chamado para compor uma banda que veio de São Paulo para cá. Deram uma timba para ele tocar de uma forma diferente e meu pai teve pouco tempo para aprender tudo do jeito que queriam. Acabou se tornando referência. Para mim, meu modelo, a fonte que me inspira”, conta. Os músicos Cláudio Coelho e Everaldo Águia, irmãos de Mamah, que fizeram carreira na Timbalada, também compõem essa história de família musical.

DJ Raiz. | Foto: Divulgação

DJ Raiz. | Foto: Divulgação

Em quase três décadas dedicadas à arte, Mamah Soares fez parte de grupo diversos como Lampirônicos, Pagolada, Orelha de Van Gogh e também a Timbalada. Ao longo de sua trilha musical, encontrou batida na fusão do ijexá, samba, hip hop, trip hop e a música afro latina, realizando um trabalho experimental. Em 2007, viajou para Portugal, onde passou um ano ministrando aulas de percussão e atuando como músico instrumentista.

Júlio Caldas. | Fotos: Divulgação

Júlio Caldas. | Fotos: Divulgação

Coletivo di Tambor

A formação base do Coletivo di Tambor começou assim que Mamah Soares voltou da Europa e, junto com outros músicos da vizinhança, procurou um local para estudar percussão. Acabaram se decidindo pela orla do bairro de Amaralina. “Não dava para estudar em casa sem incomodar os vizinhos. Então pensamos em levar os instrumentos para a praia, onde não perturbaríamos ninguém”, lembra o percussionista. Assim, todo começo de semana, os músicos desciam a ladeira com seus instrumentos e iam ensaiar na Ilha, uma pedra no meio do mar de Amaralina que fica acessível durante o tempo da maré vazante. “Lá, nós dividíamos nossas experiências, limpávamos nosso toque – a maneira como se bate o instrumento para conseguir um determinado som – e experimentávamos ritmos”, lembra. Em 2010, eles se mudaram definitivamente para o Largo das Baianas de Amaralina, prosseguindo com a pesquisa de ritmos e construindo a sonoridade musical que viria a se tornar a marca do grupo, assumindo em definitivo o nome Coletivo di Tambor.

O projeto foi tomando novos rumos e o grupo já esteve em eventos como Verão Coca-­Cola, FIAC, Festival Lado BA, Panorama Internacional Coisa de Cinema, Réveillon de Salvador, Stereo Sul/Conexão Vivo (Itacaré ­ BA). Em uma das apresentações, no Carnaval em Salvador, o Coletivo di Tambor dividiu o trio elétrico com Dão e sua Caravana Black, além do DJ Sankofa, de Gana, momento em que gravaram o primeiro videoclipe, com a canção “Coletividade”, que no ano seguinte integraria o EP “Sistema de Energia Sonora”, primeiro trabalho de estúdio do grupo.

Em 2014, com o projeto “As Lendas”, o Coletivo se apresentou por coretos de Salvador. Contemplado pelo edital “Arte todo dia”, da Fundação Gregório de Matos (Prefeitura de Salvador), o grupo recebeu, na ocasião, convidados como Mateus Aleluia, Cacau do Pandeiro, Lula Nascimento e Mestre Lourimbau. Entre artistas que já subiram ao palco com Mamah e os músicos do grupo, estão também as norte-americanas Ama Chandra e Michaela Harrison, Marcio Mello, Nara Gil, Claudia Cunha, Cicinho de Assis, além de MCs da cena soteropolitana.

O grupo lançou, EM 2014, o EP “Sistema de Energia Sonora”, produzido por André T. A faixa “A Filha de Calmon” foi contemplada com o Troféu Caymmi 2015 nas categorias Melhor Videoclipe e Melhor Direção. Neste período, tiveram músicas selecionadas para os volumes 1 e 3 da coletânea Kafundó Records, que estão sendo divulgados por seus produtores nos EUA. Em 2016, o grupo tocou no Carnaval Ouro Negro no Pelourinho e, mais uma vez em estúdio, gravou o single “Sabor da fruta” com participação especial do cantor Felipe Cordeiro.

Entre os ritmos pesquisados pelos músicos do Coletivo di Tambor, estão o baião, o xaxado e o xote, conhecidos como regionais nordestinos, o ijexá, bastante executado em Salvador e região do Recôncavo da Bahia, e o carimbó paraense, considerado de origem indígena com influências da cultura negra. “Quando a gente pensa, por exemplo, que o baião veio do lundu que os negros de angola escravizados dançavam, da umbigada, a gente começa a criar uma teia de relações que nos reconectam com uma identidade que se transformou, mas não se perdeu”, conta o percussionista. Nos shows, o grupo traz também sons com influências dos dub jamaicano, black beat, afrobeat e a guitarrada, homenageada nesta edição.

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