Não há nada que nos deixe mais triste do que quando encontramos com os nossos defeitos, confrontamos os nossos medos e encaramos os nossos próprios demônios. Não há nada pior do que quando nos reconhecemos estúpidos, insensatos, decidindo coisas de forma ilógica, provocando tempestades que não poderemos conter. Vez em quando, todos nós nos afogamos por conta própria, metemos os pés pelas mãos, e isso é mal. Isso é muito mal.

Como podemos fugir dos próprios vícios? Como tangê-los para debaixo de tapetes que nunca mais serão levantados e sacudidos? Como esperar que as pessoas ao redor mudem se nós mesmos não conquistamos uma nova roupagem? Por que é tão difícil se melhorar? Por que é tão mais fácil culpar alguém? Não há nada pior do que se sentir ferido, fraco, inseguro e estúpido. Olhar-se no espelho e declarar-se culpado. Não há peso pior do que aquele que sentimos quando nós mesmos nos condenamos errados. Sentir e ter a certeza de que o que se sente é pela própria incapacidade de se preservar, se manter calado, se manter inerte, se manter calmo, se manter plácido, se manter leve. Será que a culpa dessa agonia que sentimos é pela percepção de que não somos perfeitos? De que somos humanos? De que também temos um lado mau? De que não há o que se faça, sempre cometeremos erros que independem da nossa vontade? Volta e meia seremos tolos? Vez em quando seremos falhos? Também magoaremos alguém especial? Talvez essa agonia nos pertença para sempre porque não se pode ser apenas bom. E não ser apenas bom, quer dizer, que também somos bondade, que também somos amor, mas apesar de tudo, estamos longe de sermos perfeitos. Afinal, é o reconhecimento de que não somos Deus.

E o que há de se fazer no caso de reconhecer que se errou e que agimos como loucos, ferozes, desumanos, desatentos, vis ou algo assim? Fácil: Exercer a humildade que há em nós. Voltar atrás. Pedir desculpas. Reaver os caminhos. Retratar-se. Dialogar. Afagar e curar quem foi ferido. E de novo, tentar ser humano. Não tem outro jeito. É encarar os próprios demônios de frente, olhando-os nos olhos para saber como driblá-los, amordaça-los e prendê-los. Até que o próximo deslize aconteça, a próxima falha chegue, a próxima luta se inicie. Enquanto isso não acontece, temos que estabelecer uma rotina de luta, árdua, diária, incansável, para que em nossa personalidade, nossos demônios não nos vençam.

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