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Um animal cnidário (do mesmo grupo das águas-vivas e anêmonas) que se reproduz de forma assexuada, provoca a extinção dos corais nativos e pode reduzir a oferta do pescado em longo prazo. Seu nome? Coral-sol (Tubastrea tagusensis e Tubastrea coccinea). Onde a espécie se instala, a vida marinha praticamente desaparece.

A capacidade reprodutiva do coral-sol é duas a três vezes maior do que as espécies nativas e cada colônia pode liberar cerca de 5 mil larvas. A espécie foi encontrada pela primeira vez no naufrágio do navio Cavo Artemidi, em Salvador, na década de 80. Em 2011, o pesquisador e autor do projeto Corais da Bahia, Ricardo Miranda, e o monitor de recifes de coral da organização não governamental Pró-mar, José Carlos Barbosa, foram os primeiros a detectar a presença de centenas de colônias no recife natural dos Cascos.

A Pró-mar começou a monitorar os recifes de coral da llha de Itaparica (na Baía de Todos-os-Santos) em 2006 e atualmente tem ampliado os estudos para outros locais, além das ilhas de Tinharé e Boipeba, no baixo sul da Bahia. “Em uma das nossas expedições, encontramos o coral-sol em um relevante recife da região, onde já é possível ver grande cobertura deste organismo em algumas ‘pedras’, dividindo espaço com importantes corais construtores dos recifes brasileiros, incluindo espécies endêmicas da Bahia”, afirma Miranda.

O biólogo acrescenta que, diferente dos demais corais, o coral-sol não contribui na construção da estrutura recifal e não possui microalgas zooxanteladas em seus tecidos, ou seja, aquelas que auxiliam os corais na nutrição. “Além disso, ele possui eficientes estratégias reprodutivas e altas taxas de crescimento, o que pode fazer deste organismo extremamente eficiente na competição por espaço”, completa Miranda.

Remoção da espécie

Parte do coral-sol, que ameaça os corais nativos da Baía de Todos-os-Santos, foi removida no final de março por integrantes da Pró-Mar. A ação foi realizada no recife natural dos Cascos, sedimentado a 20 metros de profundidade na costa leste da Ilha de Itaparica e a 12 km de Salvador via mar.

coral_solMergulhador da Pró-mar remove coral-sol de plataforma na Baía de Todos-os-Santos

A remoção foi realizada de forma artesanal, com o uso de talhadeiras e marretas, por um grupo de 10 pessoas, dentre os quais, biólogos, pescadores e ambientalistas.

A bióloga Amanda de Carvalho, explica que o trabalho exige cuidado. “A colônia tem que sair inteira, senão o stress provoca a liberação de larvas imediatas e, consequentemente, a proliferação do bioinvasor”, diz. A especialista não soube informar a quantidade removida, porque, segundo ela, depois de removido, o coral-sol é colocado em água-doce. “Em contato com a água-doce, o coral-sol morre”, afirma.

Apoio privado

Ainda conforme Amanda, a ação precisa contar com o apoio da Petrobrás, empresa que seria responsável por introduzir o coral-sol nos recifes baianos. “Há estudos que comprovam que o coral-sol foi trazido por plataformas de petróleo advindas do Golfo do México”, conta. Essa já é a décima ação do grupo, mas a bióloga adverte que a atividade pode ser interrompida, devido à falta de recurso. “Por enquanto fazemos a remoção com recursos próprios e de forma rudimentar. Precisamos do apoio de indústrias, principalmente as de petróleo e gás”, explica.

O biólogo acrescenta que, diferente dos demais corais, o coral-sol não contribui na construção da estrutura recifal e não possui microalgas zooxanteladas em seus tecidos, ou seja, aquelas que auxiliam os corais na nutrição. “Além disso, ele possui eficientes estratégias reprodutivas e altas taxas de crescimento, o que pode fazer deste organismo extremamente eficiente na competição por espaço”, completa Miranda.

Quatro perguntas para Zé Pescador, da ONG Pró-Mar:

Quais são as maiores dificuldades para executar o trabalho de remoção?

Só recentemente obtivemos a licença do Ibama. Estamos entre as duas instituições do Brasil que têm essa autorização. Tivemos que contar com o apoio de uma pessoa com conhecimento para escrever o projeto, até porque é necessário atender a uma série de exigências técnicas. Hoje, não estamos com o trabalho a todo pique porque faltam recursos.

Há estudos que comprovam que o coral-sol foi trazido por plataformas de petróleo advindas do Golfo do México, portanto, estamos em negociação com empresas de petróleo e gás. A Pró-mar vive atualmente de doações. Cada integrante doa muito de si para que ela aconteça. Eu, por exemplo, faço palestras. Todos se doam muito pela causa.

E como tem sido essas negociações?

Precisamos deixar alguns pontos esclarecidos. O primeiro é que, com a qualidade atual da água da Baía de Todos-os-Santos, não é possível viver de pesca, apenas sobreviver. Ora, o coral-sol chega aqui grudado nas plataformas. A Petrobras acha que a culpa não é dela, o Estaleiro São Roque acha que não é dele – não dá para ser mais assim. Ficamos sabendo que o estaleiro quer vir agora com uma plataforma cheia de coral-sol do Rio de Janeiro. Entramos com uma ação pública, mas eles vieram com uma liminar. Poxa, então meus amigos e eu nos matamos todos esses anos para limpar o fundo mar para quê? É só trazer a plataforma e deixá-la ali?

ze_pescador_bnlZé Pescador, fundador da Pró-mar: cuidados são necessários para a remoção correta da espécie bioinvasora

Aos poucos, estamos conseguindo conversar com essas empresas, negociar em busca de soluções, porque também não adianta nada ficar apenas reclamando. Temos que ter diálogo para resolver o problema. A propósito, o Ministério Público, por meio da doutora Cristina Seixas, que é da Comissão de Meio Ambiente, nos recebeu muito bem e tem nos ajudado.

Quais regiões têm sido mais afetadas pela ação do coral-sol?

O sul da Ilha de Itaparica é o lugar mais impregnado. Também destaco São Roque do Paraguaçu, na região da Reserva Extrativista Marinha da Baía do Iguape. Lembrando que espécie-invasora não se extingue, se controla.

Como tem sido o trabalho junto aos pescadores da região?

Quando os mergulhadores avistarem este coral, não devem coletar nem quebrar as colônias, pois ao manipulá-lo incorretamente, pode-se estimular a desova deste organismo, contribuindo com a amplificação do problema. O correto é comunicar o mais rápido possível a Pro-mar ou algum especialista da área. Os pescadores também podem contribuir com a remoção, mas precisam ser treinados e qualificados. Eles devem ter acesso à tecnologia que permita a eles fazer a retirada do organismo invasor sem criar maiores problemas ao meio ambiente.

Meu próximo passo é batalhar uma licença de comércio, porque, uma vez removido corretamente, o coral-sol (apesar de tudo) pode ser uma importante fonte de economia criativa. Vivo, ele pode atender a indústria da aquariofilia. Já morto, ele pode servir como matéria-prima para o artesanato, até porque é muito bonito. Poderia ser uma fonte de renda para os pescadores.

O outro lado

Para o diretor de Relações Institucionais da Enseada Indústria Naval S.A. Humberto Rangel, falta um estudo científico que atribua a responsabilidade pelo coral-sol às plataformas. “Reconhecemos o caráter nocivo desse bioinvasor. Esse é um problema difuso e cabe ao poder público assumir a liderança da avaliação, definindo uma política ampla de atuação”, defende.

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