Tudo bem: o nocaute da derrota por 7×1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo, em casa, doeu, ainda dói e continuará doendo por um bom tempo. O luto não tem dia nem hora para terminar. Mas, mesmo antes que se dissipe totalmente a névoa do espanto e da vergonha, é possível começar a pensar e tentar acreditar numa mudança radical do futebol brasileiro. Usar a catástrofe de forma pedagógica, produtiva, transformadora.

Antes que se dissipe totalmente névoa do espanto e vergonha, é possível começar a pensar numa mudança radical do futebol brasileiro. Foto: Getty Images/Fifa

Antes que se dissipe totalmente a névoa do espanto e vergonha, é possível começar a pensar numa mudança radical do futebol brasileiro. Foto: Getty Images/Fifa

A maneira mais eficaz de barrar uma refundação saneadora do nosso futebol é apontar o dedo para algum bode expiatório: “culpa do Felipão”, “culpa da Dilma”, “culpa do Zúñiga”, “culpa do Mick Jagger”. Extirpa-se o culpado e voltamos a ser os melhores do mundo. Evidentemente, não é assim que funciona.

Para começar a entender as razões do fracasso brasileiro talvez seja útil observar, por contraste, as razões do sucesso alemão.

Revolução silenciosa alemã

Quando a Alemanha perdeu a final da Copa de 2002 para o Brasil, os dirigentes esportivos do país decidiram iniciar um processo de renovação e preparação de longo prazo para voltar a conquistar um título, algo que não acontecia desde 1990. O ex-artilheiro Jürgen Klinsmann assumiu como treinador e chamou como diretor técnico da seleção o também ex-atleta Oliver Bierhoff, que segue até hoje no posto.

Pois bem: a Alemanha perdeu em casa a Copa de 2006 (ficou em terceiro) e não houve tragédia. Klinsmann saiu, mas deixou no lugar seu assistente, Joachin Löw, que obteve também a terceira colocação na Copa de 2010, na África do Sul, e continuou no cargo.

De 2006 até hoje, sob o comando de Klinsmann/Löw/Bierhoff, a seleção alemã viveu um processo contínuo de abertura para os naturalizados e filhos de imigrantes, beneficiando-se do surgimento de uma talentosa geração de atletas. Manteve o mesmo elenco-base e a mesma filosofia de jogo – troca de passes, deslocamento permanente, inversão de posições entre jogadores polivalentes – desde a Eurocopa de 2008 (na qual foi vice) até hoje.

No Brasil, no mesmo período (e praticamente desde sempre), as coisas se deram de modo radicalmente distinto. Com o fiasco na Copa de 2006, atribuído pela mídia e pelo torcedor comum ao excesso de estrelismo e de dispersão do “quarteto mágico” (Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano), passou a vigorar uma filosofia austera e militarista, encarnada na dupla Dunga-Jorginho. Futebol bonito passou a ser visto como frescura. A ideia do jogo como guerra, da “pátria em chuteiras”, passou a vigorar com mais força do que nunca. Concentração e cara feia eram mais valorizados do que o talento e a competência técnica.

Sebastianismo e pensamento mágico

Com o fracasso de Dunga e sua equipe na África do Sul e, depois, a passagem anódina de Mano Menezes pelo comando da seleção, a CBF recorreu a um traço nunca assaz estudado do imaginário popular: o sebastianismo. Quem foi o último treinador a conquistar um título mundial para nós? Luiz Felipe Scolari. Então está resolvido: como o redivivo rei Don Sebastião, Felipão voltaria das brumas do passado para nos conduzir à glória.

Quer dizer: enquanto a Alemanha apostou no planejamento e na preparação intensiva, o Brasil apostou no pensamento mágico, na manipulação dos sentimentos mais primários dos torcedores. Até quando vai durar essa crença de que a mera camisa amarela mete medo no adversário, de que entrar em campo com a mão no ombro do companheiro da frente, como uma fileira de prisioneiros, e gritar o hino com lágrimas nos olhos faz o time jogar melhor?

Mas talvez haja uma camada ainda mais profunda de problemas abaixo dessas trapalhadas de superfície. No período de que estamos falando houve uma dramática escassez de craques nos gramados brasileiros, sobretudo os de meio de campo, responsáveis pela organização e criação de jogadas. Nos melhores tempos do futebol brasileiro, sempre foi esse o nosso ponto mais forte. O que foi feito dessa estirpe que teve Didi, Gérson, Ademir da Guia, Rivellino, Falcão?

Proibido pensar

Em algum momento parece que nossos treinadores e dirigentes caíram na falácia de que o futebol moderno não precisa pensar. Pelo contrário: pensar atrapalha. Bastam preparo físico e disposição.

Há razões estruturais para essa escassez. Uma delas é a saída precoce de nossos jogadores mais talentosos, vendidos para clubes da Europa e da Ásia quando ainda estão em formação. Rompe-se assim a cadeia de aprendizado coletivo que deu ao longo das décadas consistência ao estilo brasileiro de jogar futebol, que encantou o mundo e hoje parece cada vez mais distante. Alguns exemplos concretos: no Santos, Zito passou o bastão a Clodoaldo; no Botafogo, Didi o passou a Gérson.

Os jovens talentos que permanecem no país são logo moldados, desde as categorias de base, ao futebol-brucutu de correria e “pegada” que tem tornado nossos jogos tão feios e desinteressantes. Formam-se zagueiros vigorosos, volantes de contenção, atacantes velozes. Mas os meias de criação são desprezados como coisa do passado, resquícios de um futebol romântico que já não existe. É fato que, no mundo todo, são cada vez mais raros os Pirlos e os Zidanes. Mas estamos na vanguarda da destruição dessa categoria de artistas.

Desperdício de talentos

Para agravar o problema, no nosso caso, os poucos meias extraordinários surgidos nas últimas décadas no Brasil foram, por um motivo ou por outro, desperdiçados em termos de seleção brasileira. Refiro-me a Djalminha nos anos 90, Alex na primeira década do século 21, a Paulo Henrique Ganso agora. É certo que eles não foram apenas vítimas dessa exclusão, mas contribuíram para ela de maneiras diversas: rebeldia sem causa, apatia, timidez. Mas o fato é que a paciência com eles, por parte dos treinadores da seleção, sempre foi muito menor do que com outros atletas de muito menos qualidade e mais “comprometimento” (leia-se, mais submissos ao paternalismo/autoritarismo reinante).

O “Mineiraço” é a oportunidade que temos para amadurecer na marra, para fazer com que nossa seleção deixe de ser uma “família” composta por atletas infantilizados em torno de um pai caloroso e castrador e se torne aquilo que deve ser: uma forte equipe de futebol.

*Por José Geraldo Couto, no blog IMS/Outras Palavras

Comentários

Comentários