Aconteceu em Lauro de Freitas, mas, como toda ~boa~ tragédia, já virou notícia nacional: nesta segunda-feira (19), uma mulher de 57 anos foi presa em flagrante tentativa de homicídio, após colocar chumbinho no café-da-manhã dos netos, duas crianças portadoras de necessidades especiais, de 11 e 14 anos.
Li várias vez a mesma notícia replicada por dezenas de sites, todas destacando, direta ou indiretamente, a ~maldade~ do ato da avó. Nenhuma linha sobre a dificuldade, o sofrimento, as condições de vida da família.
Como diz a poeta Marisa Monte, “a dor é de quem tem”. Ainda assim, um exercício breve de empatia é sempre bem vindo.
Quem já cuidou de um doente dependente sabe o duro que é. Três, então, todos dependentes dos cuidados de uma idosa e sem o suporte financeiro adequado, haja força, foco e fé! Aqui, aquela frase que virou modinha em camisetas regata, “no pain, no gain”, não se aplica: a dor é constante, e os ganhos sempre reduzidos, junto com a esperança.
Não quero justificar o ato de desespero dessa senhora, mas lançar um olhar um pouco menos frio e determinista sobre a cena. Pergunta imediata: onde está o pai dessas crianças? E os avós paternos? O (aparente) abandono por parte do pai é tão ou mais cruel que o envenenamento da avó.
Próxima pergunta: onde está o Estado? A avó, claramente a única responsável pela sobrevida de três incapazes, foi presa e vai responder por flagrante tentativa de homicídio. Com a possibilidade de ter um agravante, já que as vítimas não tinham possibilidade de defesa. Quem vai cuidar dos três, se ela for condenada? A partir do momento que o Estado toma ciência da condição de vida dessa família, não deveria ele ser o garantidor de uma condição mínima de subsistência e dignidade para os quatro?
Claro, que esse cenário onde, ao invés de ser julgada e condenada, essa mãe e avó recebe o aporte necessário para cuidar da sua filha e netos dignamente, só existe do “mundo perfeito da Fran”. Que ótimo seria se a realidade fosse assim…
Não tenho pretensões de mudar o mundo com esse texto. Mas ficaria muito feliz se conseguisse colocar um pouco mais de empatia no coração de quem se acha apto a julgar essa mulher. E ficaria radiante se conseguisse fazer ao menos alguns dos meus colegas jornalistas lembrar que existem contextos por trás dos fatos; que a notícia não é um evento isolado; que existem vidas por trás de cada tragédia estampada nas manchetes frias.

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