– Valei-me, meu Santo Antonio!

Foi com um berro, meio que de devoção, meio que de desespero, que Seu Claudiomiro – e sua turma da lida na roça – pulou da caminhonete em movimento. Não era assombração de verdade, mas eles nem perceberam. O susto foi maior!

Arte: Michel Dória

Arte: Michel Dória

– Vixe Maria, seu moço! Me borrei todo!

Foi assim…

Seu Claudiomiro estava na beira da estrada, esperando uma carona para voltar à cidade. O dia foi árduo na labuta. A roça de milho carecia cuidados, afinal a colheita era aguardada.

O velho contava causos do santo casamenteiro pra sua turma, enquanto um filho de Deus generoso passasse de carro para dar-lhes carona.

Quilômetros antes, Joaquim de Nôinha pegou carona numa caminhonete. Foi em cima, na carroceria. Lá, era transportado um caixão vazio. Seria doado a uma família carente da cidade, que teve um dos entes queridos falecido na noite anterior.

Começou a chover.

Para escapar do aguaceiro, Joaquim de Nôinha não pensou duas vezes e se abrigou dentro do caixão.

A caminhonete foi avistada por Seu Claudiomiro e a turma de roceiros. Braço em riste, pediu carona e o generoso condutor também parou.

Sorridentes, os roceiros pularam na carroceria, sem imaginar que outro viajante estaria ali, num local inusitado.

O sorriso deu lugar a olhar de reverência. Poderia ter ali um defunto, naquele caixão.

– Deus guarde sua alma. Rezava Seu Claudiomiro.

A essa altura, a chuva já havia passado e, depois de um cochilo tirado por Joaquim de Nôinha no escurinho do caixão, o moço resolveu sair!

– Tarde, pessuá!

– Valei-me, meu Santo Antonio! Gritou Seu Claudiomiro.

– Creindeuspadre! Arremataram os roceiros, aos berros, antes de pularem da caminhonete em movimento!

Pensaram que um morto-vivo saíra do caixão! E foi assim, correndo léguas, que a turma deu novo sentido ao santo casamenteiro: protetor dos viajantes contra assombrações!

 

 

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