Conheci Belchior ainda na infância, pelas ondas da rádio Educadora, que era o meu despertador diário e companhia sonora de sempre que meu avô estava em casa. Ele, meu avô, era um metalúrgico que trabalhava em outros estados e por isso, passava mais tempo viajando que com a família…

Por Francis Amaral*

Mas tinha o hábito de ouvir o jornal das 5h da manhã, na Sociedade e, logo após, a Educadora, que ficava sintonizada até o meio dia, quando era hora do jornal na TV. Foi assim que conheci MPB e passei a amar chorinho e forró ainda na primeira infância.

Entretanto, não foi assim que Belchior entrou para sempre na minha história. A história com Belchior começou muitos anos mais tarde, e não é só minha…

Imagine centenas de estudantes, todos em regime de internato ou semi, numa escola agrotécnica federal no interior do estado. Gente jovem e sonhadora, vinda dos quatro cantos de Bahia, a maioria muito, muito longe de casa.

Tudo que era conhecido, familiar para nós, tinha ficado para trás. Agora alimentávamos sonhos de grandeza e liberdade, em mundo completamente novo, onde cada um de nós se reconstruiria enquanto ser humano. Mais que colegas de escola, nos tornamos uma família. Várias famílias. E não apenas no sentido subjetivo (mas igualmente real) da fala.

Nesse mundo novo, entre tudo que nos diferenciava e nos unia, havia Belquior, que para mim e tantos outros, musicara com perfeição o sentimento daquela vida, sem nem sequer imaginar pelo que passávamos. De alegre e de doloroso.

Aquela nossa vida durou três anos. O tempo regimental do ensino médio. Para alguns durou bem menos. Para outros um pouco mais. E é preciso falar daqueles cuja vida foi duramente abreviada. Para nós, se foram cedo demais…

Mas a presença de Belchior, assim como tudo que aprendemos naquela escola – aquela, onde todos nós aprendemos a viver – nos acompanharia para sempre, ainda que naquele momento não soubéssemos disso.

A música era Tudo Outra Vez. Era nosso hino. Cada palavra, cada estrofe, contava nossas vidas, nossos sonhos e desejos. Era perfeita. Para os daquele momento e para outras centenas que vieram antes. Era perfeita. Desde o “Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa” até o “ainda sou estudante da vida que eu quero dar”, passando, com um gostinho especial, pelo “sentado à beira do caminho para pedir carona”.

Ela ainda nos acompanha, relembrando aqueles que, consensuamos em dizer, foram os melhores, ou no mínimo, os mais importantes anos da nossa vida, até então. “Até parece que foi ontem…”

Hoje… Hoje lamentamos.

A rede branca parou de balançar.

O cachorro ligeiro chora baixinho.

O concorde vem aqui de perto, trazendo para o sertão o início do termo saudade.

A normalista linda chora.

Mas o estudante virou mestre, e sua arte embalou vidas, através das quais ele continuará existindo.
Adeus, Belchior. Obrigada por tudo!

 

*Francis Amaral é jornalista.

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