Os krahô se amontoam diante da única TV da aldeia, sentados sob um sol escaldante em frente à casa do cacique. Cansado do modorrento zero a zero entre Brasil e Sérvia, o pajé Alcides Pirca, 63 anos, menciona a feitiçaria em seu desabafo.

Centenas assistem, nas aldeias, às partidas. Mas homens e mulheres preferem praticar esporte, enquanto pajé pensa em feitiçarias pela seleção…

Centenas assistem, nas aldeias, às partidas. Mas homens e mulheres preferem praticar esporte, enquanto pajé pensa em feitiçarias pela seleção…


– Se Seleção chama pajé, Seleção ganha Copa – resmunga em português vacilante o líder espiritual da Aldeia Manoel Alves Pequeno, onde 300 índios habitam casas de barro e palha, sem banheiro nem luz elétrica (um gerador garante a TV do cacique), no interior de Itacajá, no Tocantins.

Desde que o futebol ganhou força entre os krahô – coisa de 10 anos para cá –, os pajés aprontam horrores contra os times rivais. Há 28 aldeias na região, portanto são frequentes os torneios entre elas, tanto de futebol masculino quanto de feminino. Nos últimos Jogos Indígenas do Povo Krahô, no mês passado, as equipes passaram a levar seus próprios pajés às outras aldeias para inspecionar as partidas. E para averiguar a bola.

– Só pajé enxerga feitiço de outro pajé. Já joguei com bola enfeitiçada: perna fica mole, corpo fica lento, pessoa parece anta jogando – descreve o meia José Crato, 27 anos, assegurando que seu time só levou 10 a 2 devido à mandinga do pajé adversário.

Alcides Pirca, o feiticeiro magro e sisudo da Manoel Alves, explica como faria o Brasil ser hexacampeão com sua magia. Em primeiro lugar, é preciso entender que pajés como Pirca passam boa parte do tempo na floresta, sempre em contato com animais e plantas. Ao encontrar na mata uma anta, por exemplo, ele se comunica mentalmente com ela, repousa sua enrugada mão sobre a cabeçorra do bicho e, na despedida, pede ao animal que lhe conceda a alma assim que morrer.

– Quando morre, espírito da anta avisa a gente – afirma o pajé, que agora assiste às mulheres abandonarem o amistoso na TV para jogar bola no campo da aldeia, enquanto os homens se preparam para a corrida de tora, o mais tradicional esporte krahô.

Para consumar o feitiço, o último passo consiste em esfregar nas mãos três grãos de milho: enquanto esfrega, Pirca evoca a alma da anta fumando cachimbo (quem fuma é ele, não a alma da anta) com sublime concentração e, depois que o milho vira pó, a farelada é lançada sobre a bola do jogo. Pronto. Os atletas das seleções que enfrentassem o Brasil na Copa, sentiriam suas pernas pesadas e curtas como antas balofas.



– Problema é que bola sai e gandula devolve outra – pondera o filho de Pirca, o pajé iniciante Pedro Iraniacá, que já mandou parar muito jogo por feitiço dos oponentes.

– Mas cada vez que bola enfeitiçada volta, Brasil faz dois gols – garante o pai.

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